Nos últimos 50 anos passaram pela prefeitura de União dos Palmares 15 prefeitos. Meio século de gestores de todas as ideologias e partidos que deixaram um saldo minguado de realizações. Tão minguado que, em pleno século 21, candidatos ainda usam adjetivos como “mudança” e “avanço” em seu marketing de campanha.
Obviamente que correligionários, puxa-sacos e apaixonados ideológicos pelas sopinhas de letras partidárias vão levantar a voz e dizer que fulano fez a praça tal, beltrano calçou um bairro, e até mesmo dizendo que minha visão é pessimista. Mas vamos por os últimos 50 anos de administração de União na mesa e verificar: O que realmente foi feito nesse meio século?
Há meio século as precárias ambulâncias carregam doentes para a capital, seja para curar um câncer ou uma infecção intestinal.
Há meio século União convive com doenças como esquistossomose, verminoses e tuberculose. Mazelas do século 17, quando a cidade foi fundada. Ou seja, nem nas doenças a cidade se “modernizou”.
Há meio século a Santa Fé vive num estado de miséria vergonhoso, inaceitável e constrangedor para qualquer cidadão que tenha direito às três refeições diárias. Gente tratada feito bicho, cuja única diferença de um animal está no fato de que portam título de eleitor para sustentar a elite. Nada mais.
Há meio século os grupos culturais sobrevivem sem apoio, mendigando um troco para dar uma contribuição crucial com o crescimento social do município, mas que os gestores ignoram para não modificar sua política do pouco pão e circo de péssima qualidade.
Há meio século estudantes se espremem em ônibus para vir estudar em Maceió, com a agravante que nesta última década precisam pagar por isso.
Há meio século os palmarinos vivem ou do trabalho no setor sucroalcooleiro ou do pequeno comércio, que apenas inchou, fazendo milhares de pais e mães de família ratearem meia dúzia de fregueses sem perspectiva de crescimento.
Há meio século que os palmarinos são “empregados” por um comércio desumano, que rasga as leis trabalhistas, transformando o trabalhador numa máquina automatizada, sem folgas ou tempo para qualificação.
Há meio séculos pré-adolescentes vivem de “carregos” na feira-livre como forma de sobreviver dignamente, perdendo a infância e juventude, e o pior, deixando a escola em segundo plano.
Há meio século o Roberto Correia de Araújo/Vaquejada incham, se transformando, sob os olhos dos gestores, num verdadeiro mostro urbano tomado pela miséria e pela violência.
Essas respostas são minhas, mas podem ser colocadas na boca de qualquer morador que testemunhou os 50 anos da cidade. Acho difícil discordar que mudança e avanço não estão no dicionário dos gestores de União há décadas. Por isso acho constrangedor, irônico, um verdadeiro acinte, seja qual for o grupo político falar em “mudança”, “avanço” ou qualquer outro adjetivo hipócrita do tipo.
União não cresceu. Inchou. E “progredimos” sim, mas no pior sentido da palavra, pois já temos drogas, fome e prostituição. Nossa política nojenta de surrupiar os cofres do município inconsequente e desumanamente conseguiu “importar” o que há de pior nos grandes centros urbanos.
Chega a ser chocante constatarmos que esse cenário pertence a um município que recebeu do governo federal, via transferência de recursos, R$ 262 milhões, arredondando-se para menos, somente nos últimos 5 anos. (Dados do Portal Transparência)
União é, e tenho orgulho disso, a terra de Jorge de Lima, Maria Mariá e Zumbi. Mas a luta de Zumbi na Serra da Barriga, um marco nacional, precisa fazer parte do nosso passado, e não permanecer se repetindo no presente das periferias miseráveis de União. A Nega Fulô precisa se transformar de vez em poesia, e não permanecer nas cozinhas nada literárias da atual elite que ainda não se deu conta da Lei Áurea. E para isso, é preciso termos pelo menos, um naco da inteligência e caráter que teve nossa imortal Maria Mariá.
União precisa ser, também, a terra da Josefa, do Cícero, do Antonio, do João, do Marcelo, do Sebastião, da Madalena e de tantos outros que estão escrevendo o futuro de uma terra que ainda não conheceu, de fato, a liberdade.
Autor: Gilson Monteiro.
domingo, 9 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Classe média, alta sordidez
A classe média é o sustentáculo dos dominantes, senão a mesma coisa. Marx me perdoe se estiver fazendo esta leitura de modo equivocado. De qualquer modo, são os pequeno-burgueses quem ocupam determinadas posições na sociedade que servem de vanguarda, braço-direito etc. aos que estão no topo da pirâmide social.
São eles quem se valem das famosas carteiradas: "Você pensa que está falando com quem? Eu sou filho de Fulano De Tal!". Ou, em estágio mais avançado, quando já facilmente reconhecidos, pintam, bordam, agridem, espancam, atiram e tudo fica por isso mesmo.
São aqueles que desrespeitam o espaço público e tudo que é público, ou mesmo os tornam patrimônios privados. Que usam as vias urbanas para exibir suas performances em motocicletas e carros envenenados, causadores de insônia.
Eles ainda têm a indecência de xingar* quem se beneficia de políticas públicas, como as cotas e o Bolsa Família, porque acreditam que a universidade lhes pertence e porque jamais passaram fome ou qualquer necessidade. Aludem à meritocracia no caso das cotas, dizem que o Bolsa cria "vagabundos". Mas se negam a enxergar a realidade de um povo que jamais teve acesso pleno à democracia, que literalmente morre na fila do SUS, nosso sucateado e fraudado sistema de saúde.
Essa classe vil de pessoas movidas a desumanidades está em todos os lugares, em todas as cidades e nós tanto as conhecemos quanto reconhecemos.
Pausa. A razão desta postagem é apenas apresentar o vídeo abaixo da professora e filósofa Marilena Chauí, muito conhecida no meio acadêmico pelos livros Convite à Filosofia e O que é filosofia, que, em palestra na USP, analisou a classe média paulista. Percebam como todo o meu furor, além de justificável, não é nada perto dos atos de insanidade desse seleto grupo social.
Aos reacionários, peço: contra-argumentem. Se puderem.
"Que país é esse?" - Renato Russo
______________________
*Xingar aqui não se refere a quem, com argumentos, se posiciona contra tais políticas públicas.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Notas #2
Cotas
O sistema de cotas nas universidades/institutos federais é uma das bandeiras defendidas por este blogueiro preguiçoso, por acreditar que o nosso país tem uma dívida histórica com aqueles que ao longo de tantos anos foram marginalizados, seja pela cor, etnia ou condição social. A presidenta Dilma Rousseff sancionou hoje a lei que reserva 50% da vagas em instituições federais para candidatos oriundos de escola pública, sendo a metade para negros, índios e pardos. Permaneceu o critério da renda per capita de um salário mínimo e meio e, como já esperávamos, foi vetado o artigo 2º, que, em caso de aprovação, anularia o propósito do Enem. A implantação do sistema em todas as esferas federais ocorrerá no prazo de até 4 anos.
Detalhe: durante a votação no Senado, apenas um senador se posicionou contra a lei (ver aqui), Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB-SP...
PSDB que...
...colocou Alagoas em 1° lugar no ranking nacional de violência, e em último no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). O governador Teotonio Vilela Filho (PSDB*) mais do que já demonstrou que seu único empenho é apenas em construir entulhos. Estamos praticamente às portas de setembro e milhares de alunos da rede estadual ainda não tiveram um dia de aula no ano letivo, devido às intermináveis reformas das escolas. Resultado: o Ministério Público processou o Estado. Tomara que surta efeito, assim como o Programa Brasil Mais Seguro ao menos diminua a criminalidade no estado. Leia o artigo do sociólogo Carlos Martins, que estuda a violência em Alagoas e que recentemente foi vítima da truculência policial, aqui para aprofundar a discussão.
...forçou a Universidade Estadual de Alagoas - UNEAL a entrar em crise neste ano, provocando a iminente greve da instituição, por descumprir TODAS as promessas firmadas por ele mesmo na presença dos representantes da comunidade acadêmica em novembro de 2011. Veja a entrevista do reitor Jairo Campos ao Bom Dia Alagoas desta segunda-feira, aqui.
Em breve, falaremos mais sobre a UNEAL.
Eleições: muita pÚlitica e pouca Política
Começou a propaganda eleitoral no rádio e na TV, para os veteranos, a campanha começa de fato. Mas o que chama atenção mesmo no interior são os comícios/caminhadas. Neste último final de semana, o senador Fernando Collor (PTB) esteve em União dos Palmares para apoiar o candidato Beto Baía (PSD). Na sua fala, segundo foi divulgado, o senador ateu-se a agredir os opositores de Baía, em especial o atual prefeito Areski de Freitas, o Kil, que também é do mesmo partido. Em nota, o gestor municipal repudiou a atitude do parlamentar. Fica registrado aí a primeira "merda federal**" no pleito palmarino, um exemplo da nossa pÚlitica.
Enquanto isso, quem faz Política sem amarras segue enfrentando os desafios e a deslealdade do poder econômico. Uma lástima. Até quando seremos escamoteados assim?
P.S. 1: Não ouvi o guia eleitoral nem fui aos comícios/caminhadas, portanto, não tenho como comentar as possíveis propostas dos candidatos.
P.S. 2: Neste blog o uso de expressões chulas está parcialmente liberado quando não houver expressão melhor para qualificar um ato. Ou seja, para expressar nossa indignação, jamais para ofender alguém. O bom humor, contudo, é totalmente livre.
____________________________
*Sou totalmente contra a política do PSDB por vários motivos: FHC, Serra, Téo, privatizações, sucateamento do serviço público, tragédia do Pinheirinho em São Paulo (janeiro de 2011), pelo desdém com a educação (em SP as escolas públicas estaduais passam por situação semelhante às nossas no tocante ao exagerado número de professores contratados) etc. etc.
**Diz-se de "merda federal" todo ato de extrema irresponsabilidade, no caso do senador, que é um representante federal, o termo se aplica perfeitamente. Concordam?
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Um coração que bate à esquerda
Gostaria de ser um Janio de Freitas quando crescer, mas tenho paixões demais.
Para quem se interessa sobre o trabalho da mídia, eis aí um exemplo do bom jornalismo tão raro e tão caro à mídia golpista (recém-nomeada de PIG - Partido da Imprensa Golpista). Só pra constar, Janio é colunista da Folha de São Paulo, um dos jornais mais conservadores do Brasil, mesmo assim destoa da diretriz de seus patrões.
As palavras de Janio me tocaram profundamente lá pelo minuto 26, quando responde à pergunta sobre sua ideologia política, pois ele vai muito além do lero-lero de azul X vermelho e de forma sucinta ele se declara a favor do povo, nas suas palavras, os "movimentos sociais em geral", posição distinguida como esquerdismo.
Apesar de eu defender o governo Lula/Dilma em muitos aspectos, bem como não aceitar tantos outros dos mesmos, não sou petista nem filiado a qualquer outro partido. Como o nobre jornalista, eu me identifico com a causa dos movimentos sociais, seja a dos trabalhadores sem salário da Usina Laginha ou do povo da tragédia do Pinheirinho em São Paulo, sinto empatia por cada pessoa que sofre opressão e me indigno constantemente. Se os causadores desses ultrajes em geral são do PSDB ou do DEM, paciência, não pedi para serem eles.
Esquerda/direita são denominações, ao meu estreito modo de ver, insuficientes e maniqueístas demais para denominar este ou aquele partido na atual conjuntura política brasileira. No entanto, se quem aposta no neoliberalismo ainda é denominado de direita e/ou centro e quem é contra de esquerda, sou de esquerda. Isto transparece claramente nos meus textos publicados neste blog, em cada retuíte/compartilhamento que faço nas redes sociais das matérias de Carta Capital (@CartaCapital), do hilário José de Abreu (ator global e petista roxo - @ZehdeAbreu), através das charges do Carlos Latuff (@CarlosLatuff), em cada provocação etc. etc. Sempre tendo o cuidado de não ofender a integridade das pessoas, mas de debater ideias e gerar dialética.
Tento ser o mais otimista possível, entusiasmo-me com políticas públicas como o sistema de cotas e fico deprimido com a situação das escolas públicas, em especial as alagoanas, e não amenizo críticas ao governo Dilma pelo tratamento dado aos professores das universidades federais. Então, como manter o otimismo sempre em alta? Somente sonhar não basta, mas preservo a esperança, porque sempre precisamos de ao menos uma faísca para acender o fogo.
É uma posição muito arriscada ser de esquerda com tantas tramóias que os donos do poder são capazes de efetuar, ou das traições mais improváves acontecerem (os palmarinos viram isso muito bem esses dias), contudo ser covarde, não se posicionar, isso sim, é vexatório. Mudar, às vezes, além de conveniente, é necessário, porém não mudar pra pior, claro.
Manter-se coerente aos princípios no decorrer dos anos tem exigido cada dia mais e isto está ligado à condições financeiras, que no meu caso é independente de qualquer favor que não o do meus pais. O "fácil" é tentador, sempre, jamais irrecusável também.
Sobretudo, sou a favor do ser humano, acredito que não preciso explicar o que isso significa. Sobretudo, ainda estou aprendendo sobre tudo, do amor à política.
Meu coração bate à esquerda e não poderia ser diferente, não depois de ver em tão pouco tempo de vida tanta injustiça provocada pelos coronéis e doutores de direita da nossa terra, não depois de ser enganado durante anos pela Globo, Veja e cia., únicos meios de informação a que tive acesso durante anos, nem depois de começar a ler o mundo, como aconselha Paulo Freire.
E, por fim, não sigam meu exemplo, sigam o de Janio de Freitas.
sábado, 11 de agosto de 2012
50% mais felizes
Voltamos ao tema das políticas afirmativas, neste caso, novamente o
sistema de cotas das universidades federais e, doravante, dos institutos
(antigas escolas técnicas/cefet’s). Leia o texto do companheiro Paulo Veras,
que instigou esta postagem, concebida a princípio como um comentário em seu
blog.
Pela história brasileira e seus desdobramentos malignos na vida de quem
ocupa hoje posições inferiores na pirâmide social, apoio plenamente o sistema
de cotas raciais e igualmente as sociais. De acordo com o projeto de lei 180/2008
a ser sancionado (creio que não na íntegra) pela presidenta Dilma Rousseff, outros
requisitos foram inseridos ao sistema de cotas: para ter direito às reservas o
candidato tem de comprovar ter cursado em escola pública integralmente o ensino
médio e não ultrapassar a renda per
capita de 1,5 salário mínimo.
Alunos de escolas privadas serão prejudicados? Ora, se podem pagar as
caríssimas mensalidades para estudar nelas, também poderão arcar com as
despesas de uma faculdade privada. Portanto, como saem perdendo aqueles que
historicamente utilizaram a universidade pública como nicho privado? 50% das
vagas ainda “serão” deles.
Agora, com a mescla dos tantos fatores, há uma ampliação da justiça
social que o Governo Federal pretende realizar. O valor per capita reflete muito bem aquilo que vejo diariamente: famílias
inteiras sobrevivendo com dois salários mínimos ou menos que isso. Negro rico?
Isso é tão difícil de encontrar que nem nas colunas sociais aparecem, exceto as
celebridades.
Sim, é uma injustiça que alguém fique de fora por ultrapassar
minimamente o 1,5 salário per capita,
todavia qual comissão avaliadora se prestaria a tão ignominiosa “retidão”?
(Muitas, mas sejamos otimistas).
O sistema tem brechas, que com o mínimo de decência devem ser corrigidas
com o tempo. A demanda será enorme, aumentará a responsabilidade das
instituições, os gastos e, quiçá, exigirá mais tempo hábil para desenrolar todo
o processo seletivo. Nenhuma missão impossível, contudo.
O artigo 2° é um verdadeiro samba do crioulo doido. Se aprovado, será um
retrocesso para o Enem, que antes não servia para exatamente nada, tanto que
nunca o fiz e muitos do meu tempo também. O vestibular/Enem não deixam de ser
cruéis, mas seguir o modelo americano é algo inviável, geraria um personalismo
pior do que o há na terra do Mr. Sam (que não é meu tio!).
A questão da escola pública deficitária sobressai-se a tudo isso. Sem um
ensino fundamental bem fundamentado (com a licença da redundância) as cotas
sejam de qual tipo for jamais atingirão seu objetivo. Medidas reparativas não
dirimem a necessidade urgente de resolver os problemas da educação, que vão muito
além de salários melhores para os professores.
As cotas, como bem colocou o Paulo, são temporárias, do contrário
perderiam legitimidade. Já dizer que as universidades terão déficit qualitativo,
como andei lendo e como argumentam alguns pequeno-burgueses, é de uma vileza
sem tamanho. É preconceito latente, não vale a pena nem discutir com tais “cidadões”.
O Estado brasileiro está devolvendo as universidades e os institutos
federais ao povo pé-no-chão e desdentado que hoje se beneficia de outras
políticas públicas, como o Bolsa Família e o Brasil Sorridente (Tcham!). Não
está com isso minando o privilégio nem a igualdade, esta que nunca passou do
papel, pelo contrário tenta equalizar as coisas.
Nossos meninos e meninas certamente se encherão de esperança com mais
esta boa nova. E ficarão 50% mais felizes.
Assinar:
Postagens (Atom)
