quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nepotismo e chumbetagem

Nepotismo, ou favorecimento de parentes e/ou amigos na gestão pública, com ônus para o erário. No caso de laços consaguíneos, explica-se por si só, é uma luta pela sobrevivência da linhagem, nos demais, se não é por aptidão rara, é por pura chumbetagem (neologismo amplamente conhecido que dispensa explicações).

Isento-me de levar este zumbido para o campo do direito, do qual sou leigo. Vi por aí que há casos possíveis de nepotismo a depender do cargo que os parentes ocupam. De qualquer forma, é uma prática imoral que vai de encontro com a ideia de uma gestão transparente e ética. 

Afora a corrupção provocada pelos nepotistas, muito incomoda a forma como esses apadrinhados exercem suas funções na coisa pública. Se fossem ao menos competentes, mas na maioria provam o contrário. Imangino, do alto da minha ingenuidade, como certos sujeitos conseguiram chegar onde estão em funções importantes da gestão. Afinal, cada cargo exige uma aptidão mínima para ser assumido. Como alguém que mal foi à escola pode se tornar secretário de educação de um município (fato que testemunhei mil anos antes de Cristo)? Um engenheiro civil tem competência para gerir a saúde pública? As respostas são óbvias, né?

Pior que isso é a tal carteirada típica dos incompetentes. "Eu tô aqui porque trabalhei na campanha do Fulano", "Eu tenho carta branca", "Eu sou afilhado do vereador Beltrano"... Gente que exerce muito mal sua função e ainda explora moralmente os servidores concursados (os contratados são em geral chumbetas também, aí eles se resolvem no gabinete mais próximo). Gente que só chegou porque chumbetou durante um bom tempo. Gente que sequer se apresenta para assinar o ponto, os famosos "marajás".

É natural que os gestores habilitem pessoas de sua confiança para os quadros da gestão pública. Só não é muito legal o fato de alguns seres perniciosos, que mais atrapalham do que fazem, serem pagos com o erário público advindo dos escandalosos impostos pagos pela população.

O favorecimento de parentes/amigos merece sempre um olhar crítico e a intervenção do legislativo. Pois o Estado não é uma extensão da família, nos ensina Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil, cujo capítulo se chama "O homem cordial". O Estado democrático não é hereditário, lembremos.

Eu me incomodo com essas coisas. E você?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Consciência incolor (parte 2)

Um silêncio, diriam, no mínimo, ensurdecedor. Um silêncio que rasgou de tristeza minha alma esses dias. 

Estamos a dois dias de findar novembro, o mês da Consciência Negra, quando escrevo estas poucas linhas. E nada demais aconteceu. Explico. Mais um ano e a grande mídia insiste em ignorar o célebre 20 de novembro, e por tabela, União dos Palmares, "berço da liberdade". Neste sentido, amiga, tivemos mais uma consciência incolor. Invisível, sem repercussão.

Vários fatores podem explicar essa indiferença midiática, como a inépcia dos gestores locais e estaduais que não promovem a nossa história e deixam que outros se apropriem dela. Aqui na terrinha, contemplamos novamente os clichês de sempre, desfiles, teatrinhos, gente espalhando informação errada, programação torta, sem logística satisfatória, artistas da terra ignorados, enfim, mais do mesmo. Por isso torno a repetir o que disse via Twitter:

Subir a Serra da Barriga só tem sentido metafísico, porque ver o canavial de João Lyra é uma lástima. (Lástima, gosto desta palavra). 

Se chover, ninguém sobe a Serra da Barriga. (A pé dá pra subir).

"Salvador recebe o título de capital negra da América Latina", noticiou o gigante Jornal Nacional, ao que indaguei: "Como se lá não tem Serra da Barriga?". (Mas têm mídia).

Mas, porém, no entanto, contudo, entretanto, todavia em hipótese alguma isso é motivo para deixarmos de comemorar e celebrar nossa história, Zumbi dos Palmares e todos os nossos ancestrais.

No mesmo 20 de novembro recebi um telefonema de Tocantins, direto da cidade de Aliança, cujo pároco, por desígnios inescrutáveis, é meu amigo. Dentre tantos assuntos em quase uma hora de conversa, perguntei: 

"Como é visto o dia da Consciência Negra aí?". Ele: 

"Olhe, Zé, é aquela coisa, nas escolas os meninos fizeram cartazes..."

Há esperança, mesmo sem o apoio da Globo, para romper esse silêncio. Um dia...

José Minervino Neto

___________________
Para ler a crônica "Consciência incolor" (parte 1) basta clicar aqui.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Segurança Pública? Onde?




União dos Palmares está entregue as baratas. É com essa frase que começo mais um post falando de problemas que parecem que nunca serão resolvidos. Queria um só dia não ter o que escrever nesse blog, mas a cada dia que passa nossa cidade tem mais e mais problemas que persistem em continuar perseguindo os cidadãos de bem, os trabalhadores e pais de famílias.

Esses dias vi no Facebook uma amiga reclamando de um assalto que tinha acontecido no estabelecimento de sua mãe, porém o que mais me chamou atenção não foi a notícia do assalto e, sim, os comentários que fizeram sobre o caso, comentários como: “Já tô até me acostumando, nem me abalo mais com as notícias... De vez em quando tem até um TIROTEIOZINHO na porta da minha casa!! Assalto já é rotina!”. As pessoas estão tão acostumadas com a falta de segurança da nossa cidade que acham normal esse tipo de acontecimento, como se isso fosse uma coisa natural. Não é e nunca será normal um assalto a qualquer hora do dia numa cidade como União dos Palmares.

Vejamos o que é a segurança pública por quem entende do assunto. Diz o Professor De Plácido e Silva: "Segurança: derivado de segurar exprime, gramaticalmente, a ação e efeito de tornar seguro, ou de assegurar e garantir alguma coisa. Assim, segurança indica o sentido de tornar a coisa livre de perigos, de incertezas. Tem o mesmo sentido de seguridade que é a qualidade, a condição de estar seguro, livre de perigos e riscos, de estar afastado de danos ou prejuízos eventuais. E Segurança Pública? É o afastamento, por meio de organizações próprias, de todo perigo ou de todo mal que possa afetar a ordem pública, em prejuízo da vida, da liberdade ou dos direitos de propriedade de cada cidadão. A segurança pública, assim, limita a liberdade individual, estabelecendo que a liberdade de cada cidadão, mesmo em fazer aquilo que a lei não lhe veda, não pode turbar a liberdade assegurada aos demais, ofendendo-a".

Depois da explanação do professor De Plácido e Silva, eu pergunto: quem em União dos Palmares tem essa tal segurança ao sair de casa? Você já foi assaltado? Já teve algum bem furtado? Já foi vítima de alguma violência? Se ainda não, você é uma pessoa de muita sorte, contudo sua vez está próxima, muito próxima.

É triste, mas é a pura realidade da nossa cidade, não estamos seguros nem nas nossas casas. Quem nos garante que ao sair de casa voltaremos ilesos? A polícia que mesmo tentando ajudar fica impossibilitada pela desvalorização do governo? O próprio prefeito, que com certeza não está preocupado com a situação, pois está seguro no aconchego de sua residência? Ou os vigias que para fazer nossa segurança usam um apito e um pedaço de pau? Pois é, a segurança pública do nosso município está definhando cada vez mais e até então ninguém aparece para resolver o problema.

Por fim, fica um apelo ao senhor prefeito, pois reformas e carros de lixo novos não resolvem os problemas maiores do nosso município. Não é mascarando a estética da cidade que as coisas tomarão o rumo certo, não é fazendo a política do pão e circo que Vossa Excelência resolverá os nossos verdadeiros problemas, que não são poucos, está na hora de parar de brincar de administrar, de sair desse marasmo e arregaçar as mangas, ou será tarde demais para termos uma cidade digna de morar e viver, sem medo de sair à porta e voltar sem a roupa do corpo.


Igor Monteiro

domingo, 13 de novembro de 2011

O mundo, Raimundo

Sinto-me cada dia mais solitário neste vasto mundo, Raimundo. Para onde foram as pessoas de bem? Acho que estão escondidas para não serem confundidas com seres de outro mundo. Às vezes, absorto num espírito de coletividade, eu pensava que a maioria das pessoas ficava horrorizada com cenas de violência, corrupção etc. Mas, não, uma quantidade significativa apoia ações truculentas da polícia e continua votando em políticos corruptos, em parlamentares-latifundiários que criam leis anti-trabalhistas etc. etc.

É, não vai bem o mundo, Raimundo.

José Lins do Rego era escritor e Flamengo doente, tão doente do coração que seu médico o proibiu de ver aos jogos do Mengão, de tanta emoção que as partidas de futebol lhe proporcionavam. O meu médico do SUS um dia vai me proibir de acompanhar o noticiário e mais ainda, determinará que eu não veja/leia os comentários reacionários e desumanos da população "democrática" que usa a Internet para os piores intentos. 

Meu coração não aguenta tanta "emoção", Raimundo.

Por que somos hoje pessoas tão ruins, Raimundo? Tudo bem não simpatizar com a causa dos estudantes da USP. Maconheiro, quando não é filho ou parente próximo, está sempre errado mesmo, né?. Mas apoiar ou incentivar que a Polícia Militar "desça o cacete" em jovens indefesos contra bombas de gás e balas de borracha, mesmo que o apoio seja via Facebook de algum lugar perdido no Nordeste ("Até tu, Brutus?") é muito estranho, para não dizer desolador. Ninguém quer ao menos escutar as ideias propostas pelos uspianos e nem é necessário, porque a televisão, dona da verdade, não mostra, e não mostra certamente porque é desnecessário. E a Internet só serve agora para que as pessoas exponham "democraticamente"  seus preconceitos e banalidades, até universitário entra nessa onda. Entendeu? 

No meu tempo, as pessoas saíam melhores da Universidade do que entravam, Raimundo.

Em Tropa de Elite 1, Raimundo, o Brasil aplaudiu a truculência policial e lemas como "bandido bom é bandido morto", traduzindo, bandidinho que está na base da cadeia alimentar do crime tem de ser morto, quem está no topo, o bandidão, lucrando com o tráfico e a corrupção, não. Quer dizer que o problema da violência é do favelado que mal sabe empunhar um fuzil comprado das mãos de um... policial! (que remete o lucro ao seu superior, e este ao seu superior ad infinitum).

Ainda bem que José Padilha e Wagner Moura se redimiram em Tropa de Elite 2, Raimundo.

Que mundo, hein, Raimundo? Sei que você é só uma rima, Raimundo, sei também que este textículo é uma prosa sem muita rima, sem nenhuma solução pro mundo, Raimundo. Mas eu continuo tentando ser gauche na vida.

José Minervino Neto

sábado, 5 de novembro de 2011

Garis: faça sol ou faça chuva


                                                         Foto: Andreson Melo

Certa vez li um artigo de um advogado chamado Sérgio Ferreira Pantaleão que é responsável técnico pelo Guia Trabalhista, que falava sobre o uso de equipamento de proteção individual no trabalho (*EPI) no qual ele falava que não bastava fornecer os equipamentos de proteção individual, mas que era preciso também fiscalizar o uso desses materiais.
Com essa fala começo a relatar um fato no mínimo irresponsável que está ocorrendo em União do Palmares, mais uma vez volto a falar de problemas simples de resolver, mas que parecem insolúveis para os administradores dessa ‘bodega’ e que uma cidade como a nossa não deveria está passando, vamos de fato ao que importa, os profissionais responsáveis pela limpeza das ruas, praças, parques e vias públicas de nossa cidade além de ter que encarar sol e chuva do dia a dia para deixar a cidade mais apresentável tem que enfrentar a falta de respeito da administração da cidade para com eles, basta olhar a sua volta e você perceberá a falta de assistência que é dada aos garis, falta de vassouras adequadas, botas, luvas, máscaras, óculos de proteção, capas de chuvas, fardas entre outros equipamentos.
Todo mundo sabe reclamar quando a cidade está suja, mas nunca vi ninguém falando dos ‘maus tratos’ que esses profissionais estão sofrendo, salvo o Andreson Melo que foi quem deu a idéia do texto. Mas o que importa de fato é que numa cidade de quase setenta mil habitantes, os profissionais da limpeza não têm condições mínimas de trabalho, o que tem é apenas um carro de mão velho, um resquício de pá e sobre a vassoura prefiro nem falar.
Vocês caros leitores podem até indagar: Mas e os novos caminhões de lixo que chegaram à cidade? Respondo: caminhão nenhum trabalha só, até pra trabalhar nos caminhões é preciso um treinamento adequado que desconfio muito que esses profissionais tenham, sem falar na questão da **insalubridade que aí já são outros quinhentos, mas a questão é que todos que trabalham com algum tipo de risco precisam mais do que nunca usar os EPI’s.
Apesar do desleixo da população e até dos próprios trabalhadores que talvez nem saibam que o uso desses equipamentos é um direito deles, faço um apelo às autoridades desse município que apesar de ser chamado de a capital da zona da mata, ainda engatinha e de uma forma muito lenta para o que consideramos uma cidade modelo, pois não adianta querer resolver problemas considerados grandes sem primeiro reparar os considerados menores, pois são esses problemas menores que acarretarão na nossa permanência nesse definhamento que nossa cidade se encontra.


* “EPI é todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado a proteção contra riscos capazes de ameaçar a sua segurança e a sua saúde”. Sérgio Ferreira Pantaleão

** Segundo a CLT, é considerada atividade insalubre aquela em que o trabalhador é exposto a agentes nocivos à saúde acima dos limites tolerados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Igor Euclides Monteiro

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Gosto do Lula, mas...

Gosto do Lula, sempre gostei mesmo no tempo em que diziam que ele iria pintar a bandeira nacional toda de vermelho e poria o símbolo do comunismo no lugar das estrelas, mesmo que dissessem que ele e os militantes do PT eram comedores de criancinhas. Mais do que do Lula, eu gostava do Enéas (R.I.P.). Gosto do Lula, porque, na maioria das vezes em que aparecia em público como presidente, ele estava rindo, contando piadas, falando na linguagem do povo. Mas não votei nele na disputa pelo segundo mandato. Pois fiquei pasmado com o escândalo do mensalão e aquela história de "governabilidade" que não me convence. Fora Sarney, Renan e sua turma!

Até hoje não tenho uma opinião definitiva sobre o polêmico Bolsa Família. Mas vejo pelo lado positivo, pois conheço muita gente que não passa por piores condições de vida devido a assistência do programa, o menino vai à escola nem que seja para estar de corpo presente e a mãe não perder o benefício etc. e tal. Minha ressalva é que ao invés de Bolsa Família o programa se tornasse em Bolsa Emprego Com Carteira Assinada.

Quase nove anos depois, podemos olhar para trás e afirmar que Lula, esperto, continuou com aquilo que deu certo com FHC, no plano econômico, e o Brasil segue avançando, agora com a Dilma. Em seu governo, a população carente teve uma atenção como "nunca na história desse país". Lula conseguiu agradar a banqueiros, trabalhadores e, principalmente, a nova classe média, gente que após tantos anos conseguiu comprar seu automóvel ou casa própria graças ao equilíbrio econômico desses anos, sem inflação incontrolável e a tesoura do FMI. Na saúde e educação houve avanços significativos. Mas ainda faltam médicos nos hospitais públicos, salário digno para os professores (especialmente dos níveis elementares) e salas de aula confortáveis para os estudantes. Na justiça, muita gente ainda está impune, mas outras tiveram a sorte de receber a visita da Polícia Federal em suas mansões, se estão livres hoje ao menos passaram por um constrangimento histórico.

O povo vê Lula como seu heroi, um pai. Os banqueiros regozijam-se de seus lucros, que só aumentam. A classe média velha torce o nariz, a nova, quer mais um pouco para comprar mais. Que figura esse Lula, hein? Pois bem, o Lula enquanto presidente sempre terá um "mas" na minha cabeça. Já a pessoa pública, não. O cara toma pinga, gosta de futebol, conta piada, se eu o encontrasse numa mesa de bar logo o faria padrinho do meu futuro filho hipotético.

Lula estabeleceu um novo parâmetro de gestão que agrada gregos e troianos. Esta é a minha percepção idiossincrática. Transformar temeridade em confiança não e tão fácil assim e o ex-presidente angariou isso do mundo inteiro. Cometeu erros graves, mas fez o que tinha de fazer. Não deixou o país na miséria e no desamparo. Lembremos que tudo gira em torno do capital, que não nos faltou, embora mal empregado e desviado tantas vezes nas micro-esferas, que é onde a corrupção acontece com mais intensidade.

Agora Lula está no hospital, enquanto escrevo, tratando-se de um câncer na laringe, porque fumou a vida inteira. Seus opositores estão usando as redes sociais da internet para atacá-lo. Argumentam que ele deveria ser atendido pelo SUS. Não pararam para pensar que Lula, ao não se tratar na rede pública, já faz seu mea culpa. Quer maior simbologia que essa? Torço para que ele se recupere o mais breve e inteiramente possível.

E não vou dizer que Lula foi melhor que FHC, porque cada um desempenhou o papel que lhe coube, no momento em que estiveram .